Desde pequenos ouvimos contos de fadas e vimos as grandes
histórias de romance do cinema, crescemos com uma ideia de amor que muitas
vezes se sustenta mais na idealização e menos na realidade. Criamos imagens de
uma pessoa perfeita, de um amor capaz de preencher todas as nossas lacunas e
nos fazer completos. Mas o que acontece quando o outro não corresponde a essa
expectativa? Como a idealização do amor pode nos levar à frustração e ao
sofrimento?
A psicanálise nos ensina, amamos não apenas a pessoa real,
mas também o que projetamos nela. Isso acontece por alguns fatores como nossos
desejos inconscientes, nossas carências e histórias de vida, tudo isso
influencia na forma como enxergamos o outro e como nos vinculamos a ele.
O amor e a projeção: o que vemos no outro?
Devido a ansiedade, acabamos vez por outra, ver em alguém uma
projeção das nossas próprias expectativas e necessidades, acreditamos que o
outro é nosso salvador, uma solução para todas as nossas dores e inseguranças,
e não realmente como a pessoa é, esquecemos de dar espaço para diferenças,
individualidade e pensamentos contrários aos nossos.
A busca pela perfeição é esperar que o outro nunca falhe,
nunca decepcione, nunca tenha defeitos...
Essas idealizações criam expectativas irreais, tornando
impossível que qualquer relação real corresponda plenamente a elas.
O fim da idealização: o outro não corresponde
Com o tempo, a realidade começa a se impor, é fato, o outro
não é perfeito, não preenche todas as nossas faltas, não é exatamente como
imaginamos. Nesse momento, provavelmente surgirão sentimento de frustração,
raiva e desilusão.
Do amor idealizado ao amor possível
O verdadeiro desafio está em abandonar a ilusão de um outro perfeito e aprender a amar o outro como ele realmente é:
por suas excelências e falhas, com sua individualidade e suas limitações. Isso não significa aceitar qualquer coisa ou permanecer em relações que não fazem bem, e sim reconhecer que o amor maduro não se sustenta em idealizações, e sim em fatos reais.
Reconhecer: ninguém pode preencher completamente nossas
faltas, o amor pode ser transformador, porém, não pode substituir a relação que
temos conosco.
Aceitar as imperfeições é amar e também aprender a lidar com
as diferenças e com a humanidade do outro.
Fortalecer o próprio eu é nos conhecermos e nos sustentarmos
internamente, não precisamos projetar no outro nossas carências.
A idealização do amor pode levar às frustrações porque nos
faz esperar do outro algo que ele nunca poderá ser, ou seja, infalível, perfeitamente capaz de nos completar por inteiro. No entanto, ao aceitarmos que o
amor não é sobre fusão de nossas projeções, mas sobre encontro de si mesmo, ele
pode se tornar mais genuíno e enriquecedor.
A psicanálise nos convida a sair da ilusão da perfeição e a
construir relações onde o outro não é um espelho de nossos desejos, mas alguém
com quem podemos compartilhar a vida de forma autêntica. No fim das contas,
amar é permitir o outro ser como é, e ainda assim, escolher amá-lo e estar ao lado dele.
Hecionara Nigri - Psicanalista Clínica

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